PROPÓSITO,
uma construção.

Nely Silvestre

Chief Transformation Office

Na recepção gelada, à espera de uma reunião com um cliente, o livro na mesa ao lado me chama atenção. As cores e a palavra Amazônia sequestram meus sentidos e eu começo a folheá-lo.

Trata-se do livro “Amazônia, a natureza em destaque”, uma coletânea das obras do artista plástico porto-velhense, Jair Gabriel. Eu o conheci ali, naqueles poucos minutos que antecediam meu compromisso. Neste tempo, pude descobrir que ele cresceu em meio à floresta amazônica e tornou-se artista apenas aos 40 anos quando já vivia em Salvador, sua casa até hoje.

Quem fez o prefácio do livro foi Antonia Torreão Herrera, professora da Universidade Federal da Bahia e doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, e quem acabara de “conhecer”. Em um texto de sua autoria – “Um salto na vida para as telas” – assim ela dá início à história do artista: “Jair Gabriel da Costa nasceu artista em plena floresta amazônica. Cresceu como filho de seringueiro, enfrentando onças e colhendo látex, sem o menor vislumbre de que o destino de seus traços na tela já vinha sendo tecido na força de cada fibra da floresta, nas formas abundantes que o circundavam, no vigor das cores, no resplendor da luz que ali acendia e fomentava seu imaginário.”

Imaginei essa infância de João e pude quase sentir a beleza de seus tenros dias na floresta, tanto pelas palavras de Antonia quanto pelas imagens das suas obras.

Gosto muito de ouvir as histórias de vida das pessoas e tenho um estranho ou talvez curioso hábito de identificar, a partir de um olhar retrospectivo, quais são os pontos de inflexão ou de conexão que fazem a vida tomar rumos. Explorar com mais atenção a vida viva que acontecia ali enquanto se estava distraído e como a “aleatoriedade” e o “acaso” levaram aos acontecimentos. Achei lindo Antonia dizer que os traços do artista já estavam tecidos na força de cada fibra da floresta. Conseguem imaginar o impacto que isso tem?

Ao longo da nossa caminhada, a pressa, a pressão e o correr dos dias, vão nos tirando a capacidade de prestar atenção a esses detalhes singelos (ou não) mas tão singulares para cada um de nós, que são capazes de delinear destinos, ampliar ou reduzir possibilidades, transformar realidades, ampliar consciências.

Hoje em dia, a palavra propósito está em alta e muito tem se falado, discutido e escrito sobre o assunto. E como tudo que vira modismo, a meu ver, seu significado tem sido banalizado ou, ao menos, minimizado. Tenho visto abordagens para propósito como sendo algo mágico que se revela aos indivíduos a partir de algo externo, descolado da vida e da experiência. É justo dizer que também tem muita gente que trata o assunto com seriedade, respeito e profundidade que lhe são devidos.

No meu ponto de vista, o propósito emerge de uma profunda investigação de si mesmo, a começar pela biografia e entendimento dos pontos de inflexão e conexão entre eles, passando por uma visão de futuro potente para dar conta de segurar a integridade da vida e da morte e culmina na intersecção de toda esta singularidade com o mundo, com o contexto em que se está inserido.

Acredito que todos somos seres de infinitas possibilidades e que estamos nesta existência para trazermos nossa melhor versão para o planeta. E isso não acontece por casualidade. É um trabalho, uma busca que percorre nosso mundo interno e externo em uma constante dança com a realidade. E penso, também, que o propósito é mutável à medida em que a consciência se expande ao longo da vida à luz das experiências, vivências, paradoxos e complexidade que, ao longo do tempo, vamos nos deparando.

A primeira vez que escrevi algo e chamei de meu propósito foi em 2005 em um curso com o Marcelo Cardoso e a Delmar Franco, mestres nesta minha jornada de autoconhecimento. De lá pra cá, ele já mudou. Definitivamente eu não sou a mesma, meu contexto não é o mesmo e, consequentemente, o meu propósito também não é. No entanto, tem algo essencial que se mantém ali, uma intenção primal que provavelmente foi construída nos meus mais tenros dias, assim como a do “peregrino das cores” como é conhecido Jair Gabriel.

Falando de Jair Gabriel, trago mais um pedacinho da história dele que descobri depois daquele dia na recepção, pesquisando para a construção deste texto: certo dia, quando ele tinha perto de 40 anos, um amigo artista lhe apresentou as telas e os pincéis, e disse: pinte, fique à vontade. Ali, Jair tornou-se, novamente, artista.

Com este pedaço da história dele, trago a importância de estarmos atentos aos sinais que nos chegam das mais diversas fontes. Somente a presença pode promover olhar atento para que façamos conexão entre o que emerge do externo e o que é mais genuíno em nós, podendo assim, delinear e escolher o que queremos devolver ao mundo em resposta ao mistério da vida.