100 formas de aprender na era da IA
Durante muito tempo, reduzimos a educação corporativa a curso, sala de aula, treinamento, e-learning, trilha e conteúdo. Mas aprender nunca coube apenas nesses formatos.

By Constanza Hummel
Sócia-fundadora e CEO da Building 8
Muito antes da existência das escolas, das universidades, dos LMSs e das plataformas digitais, o ser humano já aprendia observando, perguntando, imitando, experimentando, errando, criando, convivendo e se adaptando ao ambiente.
A nossa espécie evoluiu justamente porque desenvolveu uma capacidade extraordinária de aprender continuamente com a experiência, com os outros e com os desafios da vida real.
Foi pensando nisso que, como grande fã, voltei ao trabalho de Maurice Gibbons, autor de The Self-Directed Learning Handbook. Gibbons foi um importante estudioso da aprendizagem autodirigida e da educação ao longo da vida. Seu trabalho nos lembra que aprender não é apenas receber informação. Aprender é assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento, construir repertório, experimentar caminhos, refletir sobre a prática e transformar experiências em crescimento.
Em sua obra, Gibbons apresenta 71 maneiras de aprender. A força dessa lista está justamente em ampliar o nosso olhar. Ou seja: aprender é muito mais amplo, diverso, efetivo e humano do que assistir a uma aula ou concluir um módulo online.
As 71 formas de aprender inspiradas em Maurice Gibbons
- Aprender ouvindo alguém falar.
- Aprender observando demonstrações.
- Aprender em cursos online.
- Aprender observando atentamente.
- Aprender estudando livros.
- Aprender perguntando.
- Aprender pesquisando na internet.
- Aprender imitando alguém habilidoso.
- Aprender praticando repetidamente.
- Aprender ensaiando mentalmente.
- Aprender buscando experiências diretas.
- Aprender realizando experimentos.
- Aprender fazendo na prática.
- Aprender trabalhando em equipe.
- Aprender ensinando alguém.
- Aprender ensinando a si mesmo.
- Aprender consumindo mídias.
- Aprender preparando apresentações.
- Aprender com mentoria.
- Aprender por tentativa e erro.
- Aprender dramatizando situações.
- Aprender categorizando informações.
- Aprender formando conceitos.
- Aprender criando mapas conceituais.
- Aprender visualizando imagens reais.
- Aprender imaginando possibilidades.
- Aprender usando metáforas.
- Aprender conectando ideias novas às antigas.
- Aprender com fracassos e sucessos.
- Aprender por simulações.
- Aprender assumindo desafios reais.
- Aprender pensando por conta própria.
- Aprender intuitivamente.
- Aprender competindo.
- Aprender brincando ou jogando.
- Aprender observando a si mesmo.
- Aprender perseguindo objetivos ambiciosos.
- Aprender refletindo sozinho.
- Aprender viajando.
- Aprender ajudando outras pessoas.
- Aprender recebendo feedback.
- Aprender registrando ideias em cadernos.
- Aprender observando modelos de excelência.
- Aprender criando processos eficientes.
- Aprender desafiando seus limites.
- Aprender por imersão.
- Aprender fazendo anotações.
- Aprender escrevendo textos ou blogs.
- Aprender “fingindo até conseguir”.
- Aprender buscando certificações ou badges.
- Desaprender por meio da terapia.
- Aprender jogando videogames ou jogos de tabuleiro.
- Aprender em eventos e conferências.
- Aprender criando vídeos.
- Desaprender questionando modelos mentais.
- Aprender criando infográficos.
- Aprender construindo objetos físicos.
- Aprender criando portfólios.
- Aprender organizando grupos de estudo.
- Aprender planejando práticas deliberadas.
- Aprender monitorando comportamentos.
- Aprender usando aplicativos móveis.
- Aprender gravando a si mesmo.
- Aprender criando símbolos e representações.
- Aprender usando acrônimos e rituais.
- Aprender através do movimento e da dança.
- Aprender visitando museus e exposições.
- Aprender criando mídias digitais.
- Aprender lendo ficção.
- Aprender assistindo filmes.
- Aprender vivendo experiências transformadoras.
Nesse meu aprofundamento me veio a seguinte provocação. Se Maurice Gibbons escrevesse essa lista hoje, em plena era da inteligência artificial generativa, será que ela terminaria no número 71?
Acredito que não.
A IA não muda a essência humana da aprendizagem, mas expande profundamente as nossas possibilidades. Ela cria formas de conversar com o conhecimento, simular situações, receber feedback, testar hipóteses, criar protótipos, explorar perspectivas e aprender no fluxo do trabalho.
Mas aqui existe um cuidado importante: usar IA para obter respostas rápidas não é, necessariamente, aprender melhor. Inclusive pode ser um grande risco.
A IA pode ampliar autonomia intelectual, mas também pode gerar dependência. Pode ajudar a pensar melhor, mas também pode enfraquecer o pensamento crítico se for usada apenas como atalho. Pode acelerar a aprendizagem, mas também pode transformar pessoas em consumidoras passivas de respostas prontas.
Por isso, a questão não é simplesmente incluir IA nos treinamentos.
A questão é redesenhar experiências de aprendizagem para um mundo em que o conteúdo se tornou abundante, instantâneo e personalizado.
As 29 novas formas de aprender com inteligência artificial
Inspirada por Gibbons e provocada pela chegada da inteligência artificial generativa, imaginei uma possível atualização dessa lista. Não como substituição ao trabalho original, mas como expansão contemporânea.
Se as primeiras 71 formas nos lembram da diversidade humana da aprendizagem, as próximas 29 mostram como a IA pode ampliar esse território.
- Aprender conversando com personas criadas com inteligência artificial.
- Aprender criando prompts.
- Aprender cocriando conteúdo com IA.
- Aprender recebendo feedback instantâneo da IA.
- Aprender simulando cenários complexos com IA.
- Aprender com trilhas de aprendizagem personalizadas em tempo real.
- Aprender transformando dúvidas em investigação contínua e profunda.
- Aprender criando imagens e gráficos para visualizar conceitos.
- Aprender usando IA como tutor socrático.
- Aprender debatendo ideias com IA.
- Aprender criando protótipos rapidamente com IA.
- Aprender traduzindo conteúdos em múltiplos formatos.
- Aprender acelerando pesquisas e sínteses.
- Aprender explorando e conectando múltiplas perspectivas simultaneamente.
- Aprender através de simulações conversacionais.
- Aprender praticando habilidades difíceis em ambiente seguro.
- Aprender criando experiências imersivas com IA.
- Aprender registrando e analisando a própria evolução.
- Aprender usando IA para refletir sobre decisões passadas.
- Aprender construindo agentes especializados de aprendizagem.
- Aprender testando aplicações em tempo real.
- Aprender validando informações criticamente.
- Aprender colaborando com humanos e máquinas simultaneamente.
- Aprender em fluxo contínuo durante o trabalho com o uso de IA.
- Aprender criando conteúdo autoral potencializado por IA.
- Aprender expandindo criatividade com estímulos generativos.
- Aprender treinando pensamento crítico diante da abundância de respostas.
- Aprender com mentoria feita por IA para tomada de decisão.
- Aprender desenvolvendo autonomia intelectual em parceria com IA.
Quando olhamos para essas 100 formas de aprender, divididas entre a contribuição de Gibbons e as criadas por mim após a chegada da IA, fica evidente que o desafio da educação contemporânea não é apenas oferecer mais conteúdo. Conteúdo já existe em abundância. O desafio é criar condições para que as pessoas saibam perguntar, experimentar, refletir, discernir, aplicar e transformar informação em repertório.
Esse ponto é especialmente importante para a educação corporativa. Muitas empresas ainda tratam aprendizagem como evento, agenda, trilha ou treinamento. Mas as pessoas aprendem também nas conversas difíceis, nas decisões tomadas sob pressão, nos erros analisados com maturidade, nos feedbacks recebidos, nos projetos desafiadores, nas perguntas que ninguém teve coragem de fazer e nas experiências que tiram o time do automático.
A inteligência artificial amplia esse território
Ela pode ser tutora, provocadora, simuladora, parceira de criação, espelho de reflexão e aceleradora de pesquisa. Pode apoiar uma pessoa a praticar uma conversa de feedback antes de realizá-la. Pode ajudar um líder a analisar uma decisão passada. Pode permitir que um vendedor simule uma negociação difícil. Pode ajudar um profissional de RH a explorar cenários, construir hipóteses e testar diferentes abordagens.
Mas a IA não substitui o sujeito que aprende, ou não deveria substituir. Ela amplia a potência de quem aprende com intenção. E pode empobrecer a aprendizagem de quem terceiriza pensamento, reflexão e discernimento.
Está claro que a IA já está revolucionando a educação corporativa, e agora a dúvida que paira no ar é: Estamos formando pessoas capazes de aprender melhor com a inteligência artificial?
Porque aprender com IA não é apenas saber usar uma ferramenta. É saber formular boas perguntas, avaliar respostas, identificar vieses, testar hipóteses, comparar perspectivas, criar conexões e transformar interação em ação. E não somente fazer bons prompts e “entubar o resultado”.
Esse é o grande convite para educadores, designers de aprendizagem, RHs e profissionais de T&D. Não basta digitalizar conteúdos antigos para transformá-los em podcasts automáticos. Não basta colocar IA dentro de trilhas tradicionais. Não basta trocar uma apostila por um chatbot.
Sabe o que vai acontecer? Qualquer empresa vai lotar seu LMS de conteúdo, rápido, bonito, mas e daí? Precisamos desenhar experiências de aprendizagem mais vivas, diversas, conversacionais, práticas e conectadas ao trabalho real.
A provocação de Maurice Gibbons continua extremamente atual
Aprender nunca foi apenas consumir conteúdo. Aprender é explorar, experimentar, refletir, criar conexões e transformar experiências em evolução. A inteligência artificial não muda essa essência. Ela apenas amplia o campo de possibilidades.
No fim, talvez a competência mais importante do futuro não seja saber mais. Seja continuar aprendendo melhor.
- Com autonomia.
- Com criticidade.
- Com intenção.
E com a coragem de lembrar que aprender sempre foi, antes de tudo, uma das nossas capacidades mais humanas.
O artigo “100 formas de aprender na era da IA”, assinado por Constanza Hummel, foi publicado em primeira mão no dia 06/07/2026 no Educador 21 — um portal referência em inovação e tecnologia na educação.
Constanza é colunista mensal do portal na editoria de Educação Corporativa, onde contribui com reflexões sobre o papel estratégico do T&D para os negócios e seus desafios diante das transformações e das competências para o mundo do trabalho.
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