Paradoxo da fricção: aprender exige esforço
O chamado “paradoxo da fricção” provoca o incômodo: nem toda dificuldade é um problema — algumas são exatamente o que sustenta o aprendizado de verdade.
Por Constanza Hummel
Sócia-fundadora e CEO da Building 8
Preciso começar este artigo com uma confissão. Eu, que sempre amei tecnologia, ando vivendo uma relação ambígua com as coisas que tenho visto e usado. Em alguns dias, ela me encanta profundamente. Em outros, me assusta. É como um pêndulo que oscila entre amor e desconfiança, entre entusiasmo e cautela. Porque, quanto mais ela resolve problemas, mais eu me pergunto se estamos, silenciosamente, desaprendendo a lidar com o esforço que nos faz crescer.
Nunca tivemos tantas ferramentas para facilitar a vida e acelerar tarefas. Lembro-me bem de quando eu dava aulas na Faculdade de Farmácia. Pesquisava em livros e fazia minhas próprias transparências, uma a uma. Sim, eu dava aula com retroprojetor. Era outro século.
Hoje, com um só clique, resolvemos problemas, organizamos nossas vidas e, cada vez mais, usamos a inteligência artificial para substituir partes do raciocínio e até da conexão humana. A promessa da tecnologia sempre foi essa: eliminar fricções, reduzir atritos, tornar tudo mais rápido, mais simples e mais eficiente.
E, de fato, conseguimos. Mas começamos a perceber um efeito colateral inesperado. Quanto mais fácil tudo fica, menos profundo se torna o nosso envolvimento com o que fazemos, com o que aprendemos e, por que não dizer, com quem somos.
Foi exatamente essa inquietação que atravessou o SXSW EDU 2026, realizado no início deste mês, e apareceu como um fio condutor em diferentes trilhas, debates e conversas que acompanhei, ainda que a distância. Não se tratava de uma única palestra ou de uma moda passageira, mas de uma preocupação compartilhada: estamos criando um mundo eficiente demais para o desenvolvimento humano.
Eu já comecei a falar sobre isso na coluna de março e acredito que ainda vou voltar a esse tema outras vezes. O conceito que emergiu desse debate ganhou um nome provocativo: o Paradoxo da Fricção.
A ideia é simples, mas desconcertante. Nem toda fricção é um problema. Algumas são essenciais para o nosso desenvolvimento.
Em uma das sessões mais comentadas, especialistas ligados à Google DeepMind discutiram como o design das tecnologias educacionais precisa mudar. Durante anos, buscamos sistemas capazes de entregar respostas cada vez mais rápidas e precisas. Agora começamos a perceber que, quando a resposta chega pronta demais, o cérebro deixa de fazer o esforço necessário para aprender.
Aprender exige energia. E energia exige envolvimento.
Não se trata de defender a dificuldade pela dificuldade, nem de romantizar o sofrimento. Trata-se de reconhecer que o desenvolvimento humano sempre dependeu de algum nível de tensão produtiva, aquela pequena resistência que obriga o pensamento a se mover, a curiosidade a se ativar e a memória a se formar.
Em outro momento marcante do festival, o educador Ned Johnson sintetizou essa preocupação em uma frase que ficou reverberando em muitos auditórios: um cérebro saudável é um cérebro que consegue lidar com coisas difíceis.
Essa afirmação desloca a discussão da tecnologia para a biologia, meu assunto preferido. Durante décadas, projetamos um mundo para reduzir esforço. Automatizamos cálculos, decisões, máquinas e até interações. Fizemos isso com boas intenções: ganhar tempo, aumentar produtividade e melhorar a qualidade de vida.
Mas, ao eliminar todos os obstáculos, começamos a remover também os estímulos que fortalecem o próprio cérebro e sustentam a mudança de comportamento, exatamente aquilo que buscamos quando falamos de aprendizagem para o trabalho.
E aqui surge um paradoxo que precisa ser encarado com honestidade.
Um mundo sem fricção pode ser confortável, mas não necessariamente próspero e saudável.
Quando a facilidade não se transforma em aprendizagem
O que começa a preocupar educadores e líderes não é a facilidade em si, mas o efeito que ela tem produzido sobre a qualidade da aprendizagem e sobre a mudança de comportamento.
Nos ambientes educacionais e corporativos, esse efeito aparece de forma muito concreta. Profissionais participam de programas completos, acessam conteúdos de qualidade, cumprem trilhas inteiras e, ainda assim, poucas semanas depois, demonstram dificuldade para aplicar o que aprenderam.
Nada disso é motivado pela falta de informação. Nem pela falta de tecnologia. Cada vez mais observa-se a falta de envolvimento cognitivo real.
Aprender exige participação ativa, esforço mental e tempo de maturação. Quando a experiência é rápida demais, passiva demais ou confortável demais, o conhecimento tende a permanecer superficial. Suficiente para reconhecer um conceito, mas insuficiente para sustentar uma decisão ou transformar um comportamento.
Esse é um dos sinais mais claros de que a aprendizagem deixou de ser experiência e passou a ser consumo.
O que o RH, o T&D e os líderes das organizações podem fazer agora
Se o paradoxo da fricção é real, então o desafio que se coloca para educadores e profissionais de Treinamento e Desenvolvimento não é tecnológico. É andragógico e estratégico.
A pergunta que emerge desse debate não é se devemos usar inteligência artificial ou digitalizar a aprendizagem. Isso já aconteceu. A pergunta que deve nos incomodar é outra: que tipo de esforço estamos convidando as pessoas a fazer quando aprendem?
Foi nesse ponto que o SXSW EDU trouxe uma contribuição importante. Em vez de defender mais conteúdo ou mais tecnologia, muitas discussões apontaram para a necessidade de desenhar experiências que preservem o esforço produtivo, aquilo que passou a ser chamado de fricção intencional.
Aprender não depende apenas de acesso à informação. Depende da qualidade do desafio cognitivo que colocamos diante das pessoas.
Isso muda o papel do RH, do T&D e até dos líderes que querem desenvolver seus times. Saímos da lógica de provedores de conteúdo e assumimos a responsabilidade de criar experiências que estimulem pensamento, julgamento e tomada de decisão.
Um dos caminhos discutidos foi o chamado Friction by Design, que propõe desenhar experiências que exigem esforço mental relevante em um ambiente seguro. Na prática, isso significa usar ferramentas que façam as pessoas pensar, e não apenas responder. Significa avaliar o processo de aprendizagem, e não apenas a conclusão de um curso. E significa criar situações que permitam testar ideias, lidar com erros e desenvolver resiliência em contextos controlados.
Ao mesmo tempo, outro tema ganhou força nas discussões: o papel do bem-estar como condição para aprender. O debate deixou de girar apenas em torno de conforto e passou a tratar o bem-estar como parte da infraestrutura da aprendizagem.
Aprender exige energia. E energia mental não é infinita.
Por isso, algumas propostas discutidas no festival apontam para a necessidade de cuidar daquilo que foi chamado de ecologia da atenção, a capacidade de preservar foco e disponibilidade cognitiva em um ambiente cada vez mais acelerado.
Isso implica escolhas simples, mas estratégicas. Reduzir a sobrecarga de mudanças simultâneas. Criar experiências que priorizem profundidade, e não apenas velocidade. E respeitar diferentes formas de aprender.
Talvez uma das ideias mais provocativas discutidas no festival tenha sido olhar para a aprendizagem a partir de um novo indicador: o retorno sobre energia, o ROE. A lógica é direta. Uma experiência de aprendizagem só faz sentido se a energia investida nela retorna em forma de capacidade, confiança ou clareza.
Quando a experiência gera fricção inútil, ela drena energia. Quando gera fricção desafiadora, ela fortalece confiança, conhecimento e comportamento.
Essa mudança de lente desloca a discussão da eficiência para a vitalidade.
O que podemos fazer agora
Se o paradoxo da fricção é real, então não precisamos esperar por grandes transformações para começar a agir. Algumas decisões simples já são capazes de mudar a qualidade da aprendizagem dentro das organizações.
Aqui estão três movimentos que qualquer área de RH ou T&D pode iniciar imediatamente.
- Desenhar experiências que exijam pensamento, não apenas presença
Antes de criar um novo treinamento, vale fazer uma pergunta simples: onde está o desafio cognitivo dessa experiência? Em vez de multiplicar conteúdos, podemos incluir situações que obriguem as pessoas a analisar, decidir, discutir e resolver problemas reais. Sempre lembrando que fricção intencional é criar as condições para que o aprendizado aconteça de verdade, não dificultar ele.
- Medir o que realmente importa
Durante muito tempo, medimos participação, conclusão e satisfação. Esses indicadores continuam relevantes, mas já não são suficientes. Precisamos observar sinais de envolvimento e mudança, como a qualidade das discussões, a aplicação prática do que foi aprendido e a evolução das decisões no dia a dia. Em outras palavras, menos foco em atividade e mais foco em impacto.
- Envolver líderes como protagonistas da aprendizagem
Nenhuma experiência de desenvolvimento se sustenta sem liderança. São os líderes que criam espaço para reflexão, que estimulam conversas difíceis e que transformam aprendizado em comportamento. Quando eles participam da condução da mudança, a aprendizagem deixa de ser evento e passa a ser cultura.
Uma potencial conclusão
No fim das contas, o nosso papel enquanto líderes do aprendizado para o trabalho não é tornar o aprendizado mais fácil. É torná-lo mais significativo.
E, em um mundo que tenta eliminar toda fricção, talvez a responsabilidade mais estratégica dos educadores seja preservar exatamente aquilo que faz o cérebro evoluir e comportamento surgir do encontro da competência com a consciência: o esforço certo, no momento certo, com o apoio certo.
O artigo “Paradoxo da fricção: aprender exige esforço”, assinado por Constanza Hummel, foi publicado em primeira mão no dia 06/04 no Educador 21 — um portal referência em inovação e tecnologia na educação.
Constanza é colunista mensal do portal na editoria de Educação Corporativa, onde contribui com reflexões sobre o papel estratégico do T&D para os negócios e seus desafios diante das transformações e das competências para o mundo do trabalho.
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